Invasão holandesa II
Nesta semana deveria chegar em Natal um vôo Charter fretado por holandeses. Cerca de 250 homens, com passagem, passaporte, mas sem indicação de hospedagem. Os órgãos de turismo do governo estadual desconfiaram, e o tal Charter foi desviado para Fortaleza. A desconfiança é de turismo sexual.
Nas notícias dos jornais locais, o que se vê é um secretário de Estado de mãos atadas, não pode impedir que os holandeses circulem pelo país em vôos domésticos, e espera que os turistas estrangeiros compreendam que no RN o assunto (turismo sexual) é tratado com muita seriedade.
O que não se encontra, nos jornais, é qualquer menção ao tipo de hospedagem que teriam (será que alugariam uma das centenas de casas de veraneio em praia badalada?).
Aceitemos a hipótese de turismo sexual para uma breve reflexão.
Segundo o Atlas de Desenvolvimento Humano no Brasil, a proporção de pobres em Natal (RN) em 2000 era de 28,7%. Alguns estudos locais apontam que esse segmento da população tem uma renda mensal de R$260,00, é comum o sub-emprego.
O turista estrangeiro gasta de U$30 a U$100 ao dia, dependendo de onde esteja hospedado. É fácil encontrar famílias em supermercados comprando frutas, água mineral, vodka, cachaça e sandálias havaianas. O point dos solteiros pode ser uma praia ou um shopping. Os solteiros ficam lá, selecionando garotas para um possível entendimento. Nas praias é pior, porque aparecem cafetinas empurrando menores que mal tem peito pra cima de velhos pelancudos.
O que os encontros sexuais garantem é dinheiro por algum tempo. De resto, há a exposição à DSTs, violência e gravidez indesejada.
É notória a dificuldade que os órgãos governamentais – voltados para a Infância e a adolescência – têm para equacionar o problema da prostituição de menores. Por uma bagatela de R$5,00 meninas de 15 anos deitam e rolam com pedreiros e carroceiros ali no mato (literalmente). Não é erro de digitação, não. São só R$5,00.
Quem é pior? Quem se vende, quem contrata, quem agencia ou quem se omite?
De fato, creio que a sociedade (na qual me incluo, ainda que por ela marginalizada) precisa encarar os fatos. O turista que vem para festinhas-sexuais vai encontrar uma população que o trata muito bem, porque paga em dólar ou euro, porque pode falar a besteira que quiser e o povo vai sorrir e concordar porque não entende. A intenção dele encontra nossa demanda por recursos econômicos.
Em Natal, segundo o Atlas já mencionado, tal turista-sexual vai encontrar jovens de 15 a 24 anos com um nível educacional baixíssimo (7,7% são analfabetos, 21,8% tem menos de 4 anos de estudo, isso em 2000). A vulnerabilidade familiar também é alta.
Precisamos encarar os fatos: o turista vai atrás do que lhe é oferecido.
Escrito por 100 noção do perigo às 08h31
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