Translação (ou neurose de aniversariante)
“Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias a que se deu o nome de ano, foi um individuo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente.”
(Carlos Drummond de Andrade)
Implico com a contagem do tempo, deliberadamente.
Da infância à adolescência somos influenciados por idéias e modelos que não racionalizamos, somos impregnados sem seleção pessoal. Cada fase da vida tem seu ritmo e a idade parece ser o único parâmetro útil.
Uma parte da infância vai embora com o primeiro dente de leite, outro com a primeira menstruação. A adolescência muda após a primeira relação sexual. A juventude muda quando?
E aí? Perdi alguns eclipeses, parei no meio da rua ou acordei cedo para ver outros, vi o nascente e o poente, pensei no ciclo que se cumpre indiferente à minha falta de tempo (ou de organização?), mas, de carona na superfície do planeta, completei mais uma volta em torno do Sol. Outra vez mudei de posição em relação às constelações, às estrelas que já se apagaram. E aí? De outono à outono, quatro estações. Ciclos, a vida chegando e indo embora junto com o fluxo menstrual.
Os administradores contam o prazo de execução do trabalho em meses e dias, os contadores controlam as horas de trabalho. Contam, calculam, projetam. Pensam 365 dias, mas o que cabe em 365 dias? Quantas gestações de ratos? Quantas gestações de elefantes? Quanta vida se faz e refaz em 365 dias?
Balanço do 37º ano: tsunami, guerra, as pessoas se expondo e revelando-se em seus discursos, papa novo, tudo muito histórico e memorável. Mas não vou lembrar da 37ª translação, porque minha alma voltou-se para questões íntimas, mal olhei para o mundo.
Fiz poucos amigos, conheci poucos lugares, comuniquei-me muito pouco. Em contrapartida, comecei a reconhecer a origem da força que nos move a todos e talvez a 38ª translação seja uma distensão no tempo, uma outra fase.
Aparentemente está tudo em ordem, algumas mudanças de estrutura sem alterar a forma. Não dá pra contar este tempo em dias, horas, meses. Há fases: fases distintas para perceber, observar, questionar, refletir, compreender, tomar decisões, alterar. Aceitar outras formas de vivenciar.
Escrito por 100 noção do perigo às 15h22
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nivers
Comemoramos nosso aniversário em maio. Doroti, Guiomar e eu.
Guiomar e Doroti são amigas desde ... desde ... (amizade comemora bodas de ouro?) fato é que as duas são amigas desde há muito tempo. Quando cheguei entre as duas, o laço já era forte.
Conheceram-se quando minha avó ainda era solteira ... Doroti foi cúmplice de meus avós até meu bisavô Carlos descobrir e colocar vô Nito na parede.
Amadureceram juntas, cuidando cada qual de sua família, acalentando o sonho de ver as famílias unidas por algum casamento. Dada a impossibilidade (até porque a minha é uma família de solteirões) houve adoção recíproca.
Então a gente acumula: três aniversários e o dia das mães. Uma festa só, um bolo só ... inviável colocar velas (deve ser um bolo, não uma tocha olímpica saindo da cozinha).
Presentes são individuais ... mas como a época propicia e a oferta é mais tentadora, o presente tem mais cara de dia das mães. De resto é presente garantido: quem vai ser o inútil que vai faltar à festa da mãe?... então, tem que levar nem que seja uma “lembrancinha” para as aniversariantes, como é indelicado presentear uma melhor que a outra ...
A casa de minha avó é uma graça, um painel bem cuidado e harmônico de lembranças. Há tantas histórias junto à cada bibelô, enfeite ou quadro na parede. Até as toalhas de mão têm história, os gatinhos bordados guardados na gaveta, as xícaras sem pires, os potes decorados artesanalmente ... santos, fotos, cortinas, as coisas que já não estão lá, mas mancharam a base da mesa ... Um mosaico onde o Brasil é mixado, construído ano a ano, festa a festa, viagem a viagem.
Depois de alguns anos de pequenas vantagens, prefiro não ganhar presentes. Nada contra presentes, mas são coisas que vou guardando, sustentando minha sinestesia, criando uma dificuldade: não posso carregar tudo comigo. Não pude guardar nada. Já não posso lembrar o tempo todo de tudo e de todos.
Escrito por 100 noção do perigo às 13h36
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